Baloeiros em São Gonçalo

Fotos: Pedro Castro

São seis da manhã de um domingo e a equipe Conexão Arte já está no corre, armando um balão de papel seda de doze metros no quintal de uma fábrica em São Gonçalo, região metropolitana do Rio. Dez caras trampam numa sincronia absurda, justificada por anos de dedicação a esse misto de arte e esporte.


Soltar balão no Brasil é ilegal desde 1998, mas a prática remete ao século III a.C., quando chineses bolaram um objeto capaz de voar com auxílio do ar quente. O inventor Zhuge Liang é quem teria criado o artefato para enviar sinais como estratégia militar. [Atualização: essa teoria parte do historiador inglês Joseph Needham. Para outro historiador, Michael Debakey, as primeiras peças voadoras surgiram no Peru.]

Independente das reais origens, por volta de 1709 d.C., o padre e cientista luso-brasileiro Bartholomeu de Gusmão criou um tal de “instrumento para se andar pelo ar”, considerado percursor dos balões modernos. Ele batizou a invenção de passarola.

Por aqui, foi nas quebradas que o balão de papel ganhou força partir dos anos 1980. De lá pra cá, inúmeras equipes de baloeiros surgiram, além de mostras, campeonatos e todo um movimento que inclui de páginas nas redes a clássicos álbuns de figurinha.

Mesmo com a proibição, os aficionados nunca deixaram de se reunir pra botar no ar seus modelos e apresentar novas técnicas, como o balão sem bucha, inflado com o ar quente do compressor sem a presença do fogo, o que elimina o risco de incêndio a partir da queda do balão. “Tem muito baloeiro adotando essa parada. A gente tá tentando se acostumar, é uma novidade” diz Gigante LM, membro da Conexão Arte. No dia em que acompanhamos a equipe, eles mantiveram o esquema tradicional, do balão acionado com fogo.


Ver o balão no alto é só o primeiro ato da saga. De acordo com Gigante, assim que vê (e admira) sua arte posta no céu, o baloeiro fica de olho no itinerário a fim de resgatá-la. Nessas horas, não tem distância ou percalço que impeça. “Uma vez fomos resgatar um balão de fusca a mais de cem quilômetros daqui, lá em Rio das Ostras. O carro acabou pegando fogo”, diverte-se.


Além de habilidade, a arte do balão exige muita paciência, uma vez que qualquer brisinha pode levar o fogo a entrar em contato com as folhas de papel e aí, um abraço. Foi o que aconteceu neste dia: durante o lançamento, bateu um vento que detenou a base do balão. Por sorte, conseguiram apagar as chamas antes da consumação total.


Assim que voltou ao solo, a peça foi direto pra oficina ganhar uma reforma. Dois dias de reparos e pronto, pronta pra voar.

Também no Fuligens

Anderson Augusto a.k.a. SAO: colorindo a realidade desbotada

Um boicote ao padrão